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Opinião: A desigualdade de oportunidade

Por Julio Lossio:

Hoje tive dificuldade para explicar a um amigo, estudante de pós-graduação na área de Economia e Ciência Política da Universidade LSE de Londres, como funciona o sistema educacional no Brasil.

Decidi compartilhar nosso diálogo:

Amigo: Julio, como funciona o ensino básico no Brasil?

Julio: Bem, ainda temos uma grande carência de creches e pré-escolas na rede pública, o que dificulta e muito a emancipação da mulher, que muitas vezes não tem como trabalhar porque não tem onde deixar os filhos. Na escola primária e secundaria já temos vagas para todos, contudo, temos escolas públicas e privadas.

Amigo: Que escolas são melhores? Públicas ou privadas?

Julio: As escolas privadas são, em geral, melhores que as escolas públicas. E aqueles que possuem melhores condições financeiras, normalmente, colocam os filhos nas escolas privadas.

Amigo: E o ensino universitário?

Julio: Já no ensino superior temos universidades públicas que são gratuitas e universidades privadas que cobram mensalidades, e dependendo do curso, relativamente caras.

Para ter acesso à universidade é preciso fazer um teste chamado vestibular e, recentemente, foi criado um teste de avaliação nacional chamado ENEM.
Através deste teste e, a depender da classificação do aluno, ele terá acesso às universidades.

Amigo: Se as escolas primárias e secundárias privadas são melhores, parece-me que isso produz certo privilégio aos mais ricos, não?

Julio: É verdade, amigo. Isso leva a uma grande distorção de oportunidade, uma vez que os mais ricos por estudarem desde muito cedo em melhores escolas, normalmente, têm desempenho melhor nos testes do tipo ENEM ou Vestibulares.

Assim, com raras exceções, nos cursos e universidades públicas de maior prestígio só entra quem tem origem em famílias de melhor poder aquisitivo.

Amigo: Julio, quer dizer que o governo acaba financiando a universidade para os que já são mais ricos, em detrimento dos mais pobres?

Julio: Infelizmente, na grande maioria dos casos, é isso mesmo.

Amigo: Desculpa, Julio, mas o teu país parece funcionar de cabeça para baixo, invertendo prioridades e favorecendo os que já têm mais. Isso só amplia as desigualdades. O que você acha que deve ser feito?

Julio: Francamente, temos que fazer o óbvio: estruturar as escolas primárias e secundárias de forma a oferecer excelência no ensino a todos.
Ricos e pobres precisam ter oportunidades semelhantes no início da vida escolar. Só assim o país identificará os seus verdadeiros talentos.

  *Julio Lossio é médico e político brasileiro, filiado ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Foi prefeito de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, para o mandato 2009-2012, sendo reeleito para o mandato 2013-2016.